Conjunto de prédios criado por Oscar Niemeyer no DCTA é demolido em São José dos Campos

  • 09/01/2026
(Foto: Reprodução)
Bloco H22, projeto de Oscar Niemeyer e construído no DCTA, está em demolição A fachada do bloco H22, conjunto de moradias militares projetado por Oscar Niemeyer, já não é mais a mesma. E parte da estrutura, que é um dos marcos da arquitetura moderna brasileira, já virou entulho. O prédio, que fica dentro do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos, no interior de São Paulo, está em processo de demolição. Imagens da demolição, feitas por celular, foram obtidas pela produção da TV Vanguarda em dezembro. A Força Aérea Brasileira (FAB) não autorizou a entrada da equipe de reportagem no local, e se posicionou em nota, dizendo que o bloco H22 apresentou patologias estruturais e que a recuperação ou reforma não apresentava viabilidade técnico-econômica quando comparada à construção de uma nova edificação - leia na íntegra abaixo. Um estudo técnico de 2003, ao qual o g1 teve acesso, já apontava problemas estruturais no edifício, como rachaduras e comprometimento da base. Não há confirmação se esse levantamento era conhecido pela administração do DCTA na época. O arquiteto Paulo Niemeyer, bisneto de Oscar Niemeyer, afirma que o edifício poderia ter sido preservado e transformado em um espaço de referência internacional. “Mesma coisa que a gente deixar demolir estátuas do Ceschiatti (Alfredo Ceschiatti) ou estátuas Aleijadinho. Você pode achar velho, mas tem que restaurar. Eu tenho me posicionado inclusive, em vários órgãos, eu vejo muita preocupação de como isso é rentável, e não como é preservar. Esse conjunto é muito importante, é a minha luta. (...) Você perde no DCTA uma chance absurda, uma oportunidade inequívoca de transformar aquilo numa referência mundial, como se fosse uma Brasília”, disse. Bloco H22 em demolição, no DCTA, em São José dos Campos. Reprodução O complexo O bloco H22 fica dentro da área do DCTA, criado em 1954 para dar suporte ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das principais instituições de ensino do país. Hoje, o complexo reúne 12 organizações militares dedicadas ao ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias aeroespaciais. O projeto do bloco H22 está entre as primeiras obras de Oscar Niemeyer em São Paulo e, ainda na década de 1940, já incorporava soluções de ventilação natural e conceitos de conforto ambiental. Parte da estrutura do bloco H22 já virou entulho. Reprodução Projeto vetado por Dutra O prédio foi resultado de um concurso vencido por Niemeyer, mas o arquiteto teve o nome vetado pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra por motivos políticos, já que era filiado ao Partido Comunista. Para contornar a situação, o idealizador do DCTA, marechal Casimiro Montenegro Filho, fez com que os arquitetos Fernando Saturnino de Britto e Rosendo Mourão assinassem oficialmente o projeto. O arquiteto Flávio Mourão, filho de Rosendo, afirma que os problemas do prédio eram conhecidos há anos e que a falta de manutenção agravou a situação, mas que é preciso preservar a história da arquitetura brasileira. “Vários prédios já mostram sinais de deterioração, sem manutenção e sem correção dos problemas. No caso do H22, isso já era sabido, só que a situação foi se agravando ao longo dos anos (...). Mas, ninguém é só presente, temos que valorizar nossa história, para construir um futuro mais sólido”, afirmou. Bloco H22 fica dentro da área do DCTA e foi criado em 1954 por Oscar Niemeyer. Reprodução O que diz o DCTA? A FAB se pronunciou em nota oficial. Confira na íntegra: "A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), informa que o Bloco H-22 foi construído na década de 1950. Ao longo dos anos, fissuras e outras manifestações patológicas observadas na estrutura foram tratadas de forma pontual, por meio de intervenções corretivas localizadas, compatíveis com o grau de severidade aparente à época. Essas ações estavam alinhadas às práticas usuais de manutenção, considerando as limitações orçamentárias e a inexistência, naquele período, de indícios técnicos conclusivos que justificassem intervenções estruturais de grande porte. Entre 2003 e 2016, não houve intervenção estrutural ampla ou tentativa de recuperação integral do edifício, justamente porque as manifestações observadas se apresentavam de forma gradual e localizada, sendo tratadas conforme surgiam. Com a reincidência e a evolução das manifestações patológicas, resultantes da fragilização do terreno e da consequente perda de capacidade de suporte do solo, em 2016 foram iniciados estudos técnicos, considerando o histórico de patologias, o estado de conservação e as condições estruturais do conjunto. Diante desse quadro, a edificação começou a ser desocupada preventivamente, medida adotada para preservar vidas e evitar riscos de acidentes. Por ocasião da elaboração do Relatório Técnico em 2019, com base em metodologias atualizadas, critérios normativos vigentes e inspeções aprofundadas, os profissionais responsáveis pela avaliação concluíram pela inviabilidade técnico-econômica de recuperação ou reforma do bloco, sobretudo quando comparada à construção de um novo prédio que atendesse às necessidades operacionais e de segurança. Por conseguinte, com base nessas análises, em 2023, o Comando da Aeronáutica (COMAER), por intermédio da autoridade competente e amparado por pareceres técnicos, aprovou o processo para a demolição da edificação, o qual já está em execução. A inviabilidade apontada não decorre exclusivamente da manutenção rotineira, mas da análise integrada da relação custo-benefício, da segurança estrutural e da expectativa de vida útil remanescente da edificação, conforme critérios técnicos consolidados. Ressalta-se, ainda, que o trabalho de graduação, intitulado "Proposta de metodologia para estudo de patologias nas edificações do CTA", possuía caráter estritamente acadêmico, desenvolvido com finalidade didático-científica, sem especificidade de laudo técnico oficial, voltado ao estudo de patologias construtivas, por meio da criação de uma metodologia para identificar possíveis causas de danos e de problemas estruturais em algumas edificações do DCTA, utilizando uma ficha padronizada. O referido estudo reconhece, em sua conclusão, que manifestações patológicas significativas demandam elevados investimentos financeiros para sua correção. Edificações do porte e da complexidade do Bloco H-22, quando acometidas por patologias estruturais progressivas, exigem intervenções de alto custo, envolvendo reforços extensivos, substituição de elementos estruturais e longos períodos de indisponibilidade de uso, o que torna a recuperação economicamente inviável em comparação à alternativa de demolição e reconstrução. É válido destacar que a FAB nutre profundo respeito ao legado do arquiteto Oscar Niemeyer, figura incontestável da cultura, da história e do patrimônio arquitetônico brasileiro, mantendo, de forma ininterrupta, compromisso institucional, ético e responsável com a preservação da cultura histórica, bem como com o devido cuidado e respeito às obras arquitetônicas de relevância nacional, principalmente aquelas concebidas pelo brilhante arquiteto Niemeyer. A FAB reafirma, por fim, seu compromisso institucional com a transparência, com a segurança das instalações, com a preservação da memória arquitetônica que compõe a história desta Organização Militar e do país, bem como com a responsabilidade de assegurar condições adequadas e ambientes seguros, priorizando sempre a integridade física de todos os usuários, por meio da adoção das melhores práticas de engenharia na gestão de seu patrimônio imobiliário." Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina

FONTE: https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2026/01/09/criado-por-oscar-niemeyer-bloco-h22-no-dcta-e-demolido-em-sao-jose-dos-campos.ghtml


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